Felicíssimo Olhar – Set 2014



face 02

Circulemos por estas ruas, espaços, paredes poéticas, reais, ilusórias, intrigantes

por Ignácio de Loyola Brandão

As cidades de Dario. Os habitantes vivem nos mesmos espaços, mesmas quadras, ruas, avenidas, becos, edifícios, frequentando os mesmos bares, empórios, farmácias, restaurantes, shoppings de informática, lojas, elevadores, e não se comunicam, não se entendem. Olham-se e não reconhecem uns aos outros.

Nas cidades de Dario seus habitantes vivem impregnados de fantasias, sonhos, medos, terrores, festas, flores, pássaros, bolas, sonhos, amebas, vazios, seres que nos parecem de outras galáxias. O que é ser, o que é parecer? Quem garante que não foram gerados embaixo de nossos pisos, tetos, atrás de nossas paredes, em nossas camas, no canto de esquinas escuras, mal afamadas.

Aqui há letras desconhecidas de alfabetos não identificados, palavras não criadas, formas que se contorcem e distorcem em água, aquários em que ratazanas convivem com peixes, ratazanas se tornam peixes em metamorfoses kafkianas, darianas.

O que vemos ou imaginamos ver nestes trabalhos? Cubículos fechados nos quais não se entra, dos quais não se sai. No céu todo tipo de seres, homens, animais, crianças, objetos, surfam em pranchas róseas.

O corte vertical de um prédio sem entrada. Cômodos. Uns vazios, outros com um sofá e um quadro, um com um jacaré, outro com uma cadeira que pode ter vindo do quarto de Van Gogh. Um homem é alto demais para um pé direito baixo, o que o obriga a curvar-se. Os homens curvam-se tanto.

Estranhos seres parecendo humanos. Ou humanos normalmente estranhos. Há ainda o que poderia ser a miniatura – ou será um projeto inacabado? – da torre de Babel, uma vez que nas metrópoles de hoje todos falam nos celulares, digitam, tuitam, ninguém se entende. Humanos perdidos. Mas os humanos estão perdidos desde que foram criados, solitários desde que nasceram. Condenados assim que nascem.

Uma laje paira solta, ameaçadora sobre um grupo em pé. A laje superior pode a qualquer momento desabar sobre as pessoas, mas ninguém se preocupa, cogita. Reflexões há muito se extinguiram.

Os isqueiros, de inocente uso diário, para acender um cigarro (mas o politicamente correto não eliminou o fumo?), uma vela de aniversário, uma boca de fogão para fazer a comida, iluminar um espaço escuro, os isqueiros tornam-se mortais, catastróficos, ao acenderem coquetéis Molotov, ao atearem fogo aos coletivos, cujos passageiros morrem no seu interior ou se sufocam jogando-se pelas janelas estreitas. A violência do cotidiano tornou-se prosaica. O vandalismo acabou banalizado.

Não se deixe enganar pela plácida beleza destes quadros, pelos desenhos que lembram Escher, histórias em quadrinhos, Crumb, Mutarelli. São alertas, sirenes e alarmes. Solte-se. Entregue-se.

Visões oníricas, surreais, ilusões de ótica.

Ou quem é Dario?

* Dario o que?

* Felicissimo.

* De onde?

* Paulista, mas família mineira, belo-horizontina.

* Quantos anos?

* 36.

* Estudou onde?

* Além dos livros, gibis, cinemas, minhas longas incursões pelos sebos das cidades, fiz a FAAP. Pensei em cinema, fiz artes plásticas.

* E estes 25 trabalhos? Aquarelas, desenhos, pinturas, objetos.

* Minha visão de mundo, vida. Sem títulos. Visões oníricas, surreais, ilusões de ótica, reais. Minhas cidades.

* Influências, buscas?

* Moebius, Chiclete com Banana, Lourenço Mutarelli, Philip Guston, contaminação Pop, Escher.

Vejo cadernos empilhados. Cadernões de capa dura, caderninhos, Moleskines, Cicero, capas negras, tamanhos variados. Centenas. Traços, desenhos, anotações visuais. Daqui nascem os trabalhos de Dario.

* Por que não exibir também estes cadernos tão fortes (belos) quanto o que está na parede? Adoraria olhar para um e ver o resultado, desvendando o processo de criação, sobre o qual você tem indicações, mas que leva seus mistérios. Nestes cadernos estão as buscas, as reiterações, repetições, encontros, bloqueios descobertas.

* Talvez…

Meu olhar atravessa a exposição, deparo com geometrias, simetrias, assimetrias, quebras, desequilíbrio. Ah, se eu ainda editasse a revista Planeta como nos anos 70, Dario seria meu ilustrador número um.

Este artista que circula por megalopolesmetropolesaldeias, desvenda vãos e desvãos, becos, grades, ruelas, vielas, corredores, nuvens. Captura tipos, situações,

orquestra os gritos, ruídos, a fumaça, a poluição, grava os humanos perplexos, os viadutos. Escadas dão em lugar nenhum.

A cidade exibe seus poros, nervos, músculos, células contaminadas. Dario abre o caderninho, anota, transfigura.

Quadros de uma exposição- 1

(Ao som de Mussorgski ou da trilha sonora wagneriana do filme Apocalipse Now de Coppola, ou mesmo Sampa cantado por Caetano e Ronda, de Vanzollini e Saudosa maloca, de Adoniran, para dar um clima)

Trabalhos que são símbolos, metáforas de cidades congestionadas, grades nas portas, janelas, portões, câmeras e luzes de segurança, ônibus nos monotrilhos, ciclovias, faixas de ônibus, motoqueiros correndo entre carros, bi bi bi bi bi bib, um zumbido infernal, medo nos cruzamentos, vidros fechados protegidos por insufilme, como se fossem carcaças vazias, metrôs superlotados, manifestações ocupando as ruas, black blocs com marretas quebram vitrines, põem fogo em ônibus. Bombas de efeito moral tiros de borracha

Quadros de uma exposição. 2

Uma arquiteta pergunta a Dario:

* O que sustenta essa pedra retangular ameaçadora?

* O pensamento das pessoas.

* Mas… e se eles param de pensar?

* A pedra cai.

* Então?

* Então…

Quadros de uma exposição. 3

O pai, cinéfilo, pergunta:

* De onde vêm estes pássaros hitchcockianos?

* Dos ninhos.

* Aves desconhecidas. Não estão em nenhum manual de ornitologia. Onde são os ninhos?

* Na cabeça do desenhista, do pintor, do poeta, do inconformista, do louco, do bêbado, do indignado.

* E onde estão ou ficam esses poetas, loucos, desenhistas?

* Na cabeça do desenhista, do pintor, do poeta, do louco, do bêbado, do calado. Da sua mente, de cada um nesta exposição, de quem vê.

* Da minha?

* Sim, abra, solte seus pássaros. Não sufoque!

Quadros de uma exposição. 4

A namorada, intrigada, fascinada, perguntou ao pintor:

* O que é isso?

* A fila para ver a fila.

* Mas é um emaranhado.

* Sim, filas que não começam e não terminam. Não conduzem a lugar nenhum e não se iniciam, não vêm de nenhum lugar. Filas de espera, de teatro, cinema, restaurante, bar, repartição pública, delegacia de policia, do pronto

atendimento, a fila da bolsa família, das escadas rolantes, do metrô, INSS, lotérica, do céu ou do inferno (que para o purgatório ninguém vai mais).

* Nestas filas as pessoas não se olham…

* E não se falam, não perguntam nem respondem não sabem onde estão, para onde vão, de onde vem.

* Filas para o nada?

* Para que são as filas?

Quadros de uma exposição. 5

Uma senhora elegante, culta, atraente, pede:

* O que é esta arte?

* Não pergunte a mim.

* A quem, então? Ao pintor?

* Não se deve perguntar ao pintor.

* A quem, a um teórico, um professor?

* Não pergunte a ninguém, a não ser a você mesmo. O artista quer que você responda.

* Eu? Por quê? O artista não responde?

* . Ele faz. Quem responde é você.

* E você? Por que não me diz?

* Posso te dizer mil coisas, mexo com palavras, brinco, investigo, especulo. O que digo será diferente do que você vai me dizer. O que vejo está certo. O que você vê está certo!

* Quantas certeza há?

* Mil. E um milhão de dúvidas.

Dario nos leva por mil caminhos, nos deixa perder em um milhão de descaminhos.

*

Ignácio de Loyola Brandão, nascido em Araraquara em 1936, escritor e jornalista, 42 livros publicados entre romances, contos, crônicas, infantis, viagens. Prêmio Jabuti com O Menino que Vendia Palavras, Melhor Livro de Ficção de 2008. Ator dos clássicos modernos Zero e Não Verás País Nenhum.



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